Covid-19 destaca a importância do apoio comunitário entre vizinhos – devemos investir, agora, no longo prazo

A Itália está isolada desde o dia 9 de março, enquanto o governo luta para conter a rápida propagação do coronavírus, o Covid-19. Durante esse período, experimentamos uma rápida transformação de nossos sistemas de suporte.

As mídias sociais, o transporte cada vez mais abundante e a marcha constante da globalização nos encorajaram a estar cada vez mais distante do nosso círculo de relacionamentos locais. Amigos, colegas, família – aprendemos a construir e manter redes, independentemente da distância.

A vida em quarentena nos mostrou, no entanto, que essas redes por si só não fornecem todo o apoio de que precisamos em uma crise. Em vez disso, voltamos a contar com nossos vizinhos, empresas e comunidades locais para manter a nossa vida minimamente em atividade.

Durante muito tempo, muitos de nós estivemos satisfeitos em sermos estranhos em nossas próprias comunidades. Poderíamos até dizer olá aos vizinhos ou frequentar o comércio local, mas não nos importamos muito com a maneira como nossa comunidade foi projetada, organizada ou mantida.

Agora que o governo italiano exige que nos tornemos moradores locais novamente, percebemos que as estruturas que sustentam a vida da comunidade precisam ser renovadas.

Embora muitas pessoas tenham demonstrado uma considerável flexibilidade e criado, às pressas, iniciativas locais para ajudar vizinhos, a crise demonstrou uma necessidade séria de investir mais efetivamente em nossas comunidades para ser eficaz em crises como a que estamos vivendo agora. É necessária uma ação considerável para que possamos construir resiliência nas próximas décadas.

A importância da coordenação local foi claramente ilustrada por nossas tentativas de organizar ações pontuais durante a crise. Como muitas outras partes do mundo, vimos grupos surgindo on-line, oferecendo-se para comprar mantimentos para idosos e ajudar indivíduos do grupo de risco.

Em Turim, lojistas e feirantes se uniram para promover serviços de entrega em domicilio. Sem os meios para alcançar a população diretamente, eles recorrem à impressão de pôsteres com uma lista de números de telefone comerciais e os afixaram pela cidade.

O Índice de Resiliência da Cidade, desenvolvido pela Arup e apoiado pela The Rockefeller Foundation, é reconhecido mundialmente pelo estudo de como indivíduos, comunidades e sistemas se adaptam, sobrevivem e crescem diante de estresse e choques.

Há muito tempo, o Índice considera a relevância de experiências locais e pontuais e o papel que elas podem desempenhar no desenvolvimento de resiliência a longo prazo. Ele ressalta que a capacidade das comunidades de “encontrar rapidamente maneiras diferentes de atingir seus objetivos ou atender às suas necessidades durante um choque … [é] fundamental para a capacidade da cidade de restaurar a funcionalidade de sistemas críticos, potencialmente sob condições severamente restritas”.

Para o Índice, no entanto, o desenvolvimento real de resiliência é muito mais do que uma ação pontual – significa “investir em capacidade de antecipar condições futuras, estabelecer prioridades e responder”.

Esse tipo de investimento estava ausente antes das medidas restritivas serem implementadas. A crise atual está nos mostrando exatamente onde o trabalho é necessário.

 

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Inclusão como premissa

Devemos começar por tornar a inclusão social como um princípio fundamental na forma como estruturamos e governamos nossas comunidades.

Como observa o Índice de Resiliência da Cidade, “enfrentar os choques e tensões sofridos por um setor ou comunidade isoladamente a outros não é suficiente à noção de resiliência”. Nesse ponto, as tentativas do Ministério da Educação, Universidade e Pesquisa da Itália (MIUR) de estabelecer uma educação à distância são ilustrativas.

Embora nossos sistemas de ensino remoto tenham começado como um serviço on-line, isso rapidamente causou problemas para famílias com banda larga limitada ou apenas um computador para várias crianças.

Os sistemas de videoconferência foram habilitados para alcançar mais de 250 participantes e a aula ao vivo pode ser seguida por até 100 mil usuários simultaneamente.

Mas essa solução não foi suficientemente abrangente. Em vez disso, foi implementado um sistema menos tecnológico, mas inclusivo, no qual os pais recebem apresentações e planos de aula e podem ensinar seus filhos no momento mais conveniente para eles.

Essa ideia simples impediu que as crianças fossem excluídas da educação diária, mas ainda não é uma solução ideal.

Se queremos construir rapidamente soluções que possam atender a todas as pessoas no caso de uma crise, precisamos redesenhar nossas comunidades para que elas sejam inclusivas em sua concepção. Isso significa desenvolver sistemas que tragam a população local para o processo de tomada de decisão.

Quem é responsável por gerenciar uma comunidade – seja o desenvolvedor privado ou o governo local – deve investir em plataformas de comunicação que permitam aos cidadãos coordenar com empresas e departamentos governamentais locais, dando a eles a oportunidade de criar soluções para as comunidades onde eles vivem.

Além disso, essas plataformas devem capacitar as pessoas a organizar e criar suas próprias iniciativas comunitárias, aumentando sua capacidade de resposta quando surgem problemas cujas soluções exijam exigem conhecimento local.

 

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Conectando presenças físicas e digitais

Em nível local, os gestores sociais da Planet Smart City, na Itália, encontraram na abordagem inclusiva à governança da comunidade uma plataforma eficaz para aprimorar suas atividades locais. Através do Planet App, pequenas empresas do bairro ofereceram entrega de produtos em domicílio.

Essa iniciativa provou ser essencial na promoção e coordenação de serviços. Mais do que apenas um meio de entrar em contato com os clientes, o aplicativo também fornece um canal de comunicação com os gestores sociais, capazes de conectar empresas locais com outras pessoas da região para ajudar a prestar outros serviços, como proprietários de van que podem emprestar seus veículos.

Um modelo semelhante está ajudando a apoiar bancos de alimentos locais. Os gestores sociais usam sua presença física e digital para coletar informações sobre as necessidades dos moradores e fornecer esses dados aos bancos de alimentos para permitir uma melhor direcionamento dos recursos.

Além disso, juntando desenvolvedores imobiliários e cidadãos em um processo de co-criação está ajudando a identificar soluções futuras.

Para aprimorar a capacidade das pequenas empresas de fornecer serviços de entrega, por exemplo, a Planet agora está explorando a ideia de armários comunitários, que permitem que os fornecedores entreguem pedidos mesmo quando os moradores estiverem ausentes.

Na Itália, Reino Unido, EUA e em todo o mundo, a luta para encontrar soluções de combate ao Covid-19 demonstrou a necessidade de repensar nossa abordagem à construção do nosso senso de coletividade.

A experiência nos mostrou que a resposta de cima para baixo da crise pode variar de excessivamente autoritária para ultra fragmentada, sem que nenhuma delas atenda realmente às necessidades da população local.

Em vez disso, deveríamos construir a base para um modelo de tomada de decisão inclusiva – que envolva as comunidades e as capacite a desenvolver soluções adaptadas às suas necessidades.

Para aprender com essa emergência, é crucial coletar dados e assim nos preparar para o futuro. Nessa direção, louvo o esforço do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, que lançou uma pesquisa on-line para detectar mudanças sociais observadas por conta da pandemia, intitulada “MSA-COVID19” (“Mudanças sociais na lei-COVID19).

Enquanto aguardamos os resultados, devemos fornecer aos cidadãos ferramentas para organização e ação coletiva, sabendo que, quando as crises atingem, são as comunidades que fazem a diferença. A crise atual nos lembrou o quanto dependemos de nossos vizinhos e do nosso comércio local – não devemos esquecer deles quando isso tudo passar.

Graziella Roccella
Diretora de Pesquisa e Planejamento Urbano da Planet Smart City

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